No próximo dia 10 de Junho, se por cá continuar, irei completar os meus 47 anos. É uma época de reflexão, cada vez mais e à medida que sinto o tempo fugir-me qual areia por entre os dedos. É um tempo de rever o passado e tentar no presente preparar um melhor futuro, de mim para os meus e os que hão-de vir. É portanto, um tempo de chorar mágoas, secar o pranto, enxugar lágrimas, arregaçar as mangas e tentar visualizar a tal luzinha no fundo do túnel, aquela luzinha de que tanto falo aos amigos na hora de os consolar, aquela luzinha que até acredito que exista porque já a vi algumas raras vezes mas que sempre me foge, traquina e marota.
Não mais que alguém já travei muita luta mas, aquela sensação de que a maior ainda me espera não me deixa serena. Dou por mim impedida de cruzar os braços por muito que por vezes me apeteça quando cansada e desiludida de remar contra a maré.
Quem sabe os ventos mudem e influenciem o curso das águas.
Quem sabe o meu sopro encontre outro sopro, e outro, e outro e, todos juntos terão certamente a força necessária para fazer a diferença, que se quer mais justa, mais eficaz, mais solidária, mais humana.
Afinal, sempre fui uma lutadora, não de causas perdidas mas difíceis.
Sou de convicções fortes, inabaláveis mas alteráveis para melhor. Tenho algumas qualidades e muitos defeitos mas, que não seja desculpa dizer que os mesmos são inerentes à raça humana porque inerente à raça humana é o evoluir no sentido ascendente, banir os defeitos, corrigir os erros e tornarmo-nos cada vez mais “humanos”.
Fui abençoada com 2 filhos, um deles já adulto – com 23 anos e, um outro ainda menino – com 12 anos. Ambos são muito especiais, cada um à sua maneira. O mais novo é o nosso “menino especial” a quem foi diagnosticado autismo, ou seja – alteração do espectro autista com atraso de desenvolvimento ao nível da fala.
Esta revelação clínica caiu como uma bomba no seio familiar arrastando-nos para outras verdades, verdadeiras tragédias anónimas escondidas na penumbra da sociedade. De repente, vi-nos protagonistas duma peça dramática no teatro da vida.
Muito se disse, muito foi cobrado, pouco ou nada foi feito.
As informações chegam-nos controversas, meio perdidas no labirinto da ignorância das causas. Cada grupo científico reclama para si a posse da verdade nas suas revelações. Para nós, pais e educadores fica o vazio, a revolta, a descrença e a impotência de não conseguir fazer mais e melhor.
A cada dia uma nova batalha nesta guerra contra algo que foi rotulado de autismo, algo tão vasto e complexo quanto o número de casos existentes.
Muito tenho pesquisado e lido na Internet sobre o tema. Novas investigações, novas pistas, algumas controversas, muitas generalizações, poucas ou nenhumas certezas.
Apenas me vou identificando com os testemunhos de pais que como eu (nós) vivenciam a dura mas simultaneamente estimulante experiência de ter uma criança autista em casa.
É o maior desafio com que jamais me deparei.
Na ausência de apoio tenho-me servido duma inestimável ferramenta – a intuição. É ela, a intuição, a par com o profundo conhecimento efectivo da minha criança, que nos tem conduzido às pequenas grandes conquistas, superando as melhores expectativas apontadas pelos clínicos, por vezes duma forma fria e até cruel.
A ausência dos meios, dos apoios, dos amigos, da sensibilização da sociedade para as diferenças e por vezes até dos próprios familiares são muito limitativas, penosas e, por vezes até desmotivantes, muito mais que ter à nossa responsabilidade uma criança autista, que ao contrário de tudo o que se lhes aponta são crianças dóceis, meigas, sensíveis, obedientes, sem maldade… a sociedade só tem a aprender com elas.
Angústia não advém do facto de ter uma criança autista mas sim de pensarmos o que será dela quando os que a amam lhes faltar – como serão tratadas, como se irão sentir, qual será o seu futuro?
Fazer este blog teve como objectivo deixar-vos o testemunho na 1ª pessoa da enorme experiência de vida que é ser mãe duma criança autista em Portugal.
Que ele possa servir de apoio e ânimo a outros pais de crianças diferentes; de informação aos investigadores; de sensibilização à sociedade em geral porque nunca se sabe se o filho que planeamos ter, que trazemos no ventre, ou que já temos nos braços poderá vir a ser aquela criança de quem nos afastamos na rua e a quem olhamos ora com repúdio ora até fingimos nem ver.
É uma realidade que afecta cada vez mais as sociedades de todos os países do mundo e que tem graves repercussões nas suas economias. Estas crianças estão no nosso presente e no nosso futuro – não podem nem devem continuar a ser ignoradas.
Amélia Florindo
NOTA: Grata a todos quantos têm visitado este blog e a todos os amigos que deixaram aqui o seu comentário que muito me tem sensibilizado.
No sentido de manter actualizadas as informações relativas ao Iúri e a tornar o espaço mais útil e interactivo foi criado um outro espaço, dispondo de Fórum de discussão sobre autismo e chat. Para aceder siga este link: http://o-meu-menino-autista.blogspot.com ou para aceder directamente clique em "O meu menino autista - NOVO" na barra lateral. No interesse das nossas crianças diferentes, espero poder continuar a contar com a vossa participação. Obrigado.
Amélia Florindo
Setúbal, 07-10-2008
ENYA - Amarantine
Você percebe que quando distribuiu o seu amor
Ele abre o seu coração
Tudo é novo
E você sabe que o tempo sempre achará um meio
De permitir seu coração acreditar que isto é verdade
Você sabe que o amor está em tudo o que você diz
Um sussurro, uma palavra
Promessas que você concede
Você o sente nas batidas do coração durante o dia
Você sabe que o amor é assim
Amarantine
Amarantine
Amarantine
Amor é...amor é amor
Você sabe que às vezes o amor vai te fazer chorar
Então deixe as lágrimas saírem...elas vão derramar
Para que você saiba que o amor vai sempre te permitir voar
O quanto um coração pode voar longe
Amarantine
Amarantine
Amarantine
Amor é...amor é amor
Você sabe quando o amor está brilhando em seus olhos
Podem ser as estrelas vindas lá de cima
E você sabe que o amor está com você quando você se ergue
A noite e o dia pertencem ao amor.


